Os olhos, avermelhados, não escondiam qualquer vergonha. Tinha-se deitado tarde na noite anterior – ou já seria dia? – e o corpo ainda transpirava álcool e tabaco fumado vezes de mais. O corpo que pague. Ainda tropeçou umas quantas vezes, a caminho do trabalho, amaldiçoando as pedras da calçada portuguesa e todos os que passavam. À medida que andava, era atropelada por imagens da noite anterior – ou já seriam daquele dia? – e ouvia os gemidos, sentia os toques como se estivesse novamente naquele quarto húmido e escuro.
Olhou para um lado e depois para o inverso, como o pai lhe havia ensinado. Trazia a pele embaçada e escondia uma certa felicidade pelo fim da semana. Os papéis em cima da secretária acordaram-lhe o olhar por momentos, mesmo quando a vontade era mandar todos aqueles corpos imóveis à merda. O dia demorou a crescer e nem os cigarros acesos apagavam a existência de um quinto dia de puro asco em olhar para seres ignóbeis e vazios.
O relógio bateu as horas certas – que nem sempre são as mesmas – e o peito encheu-se de resquícios de vontades alheias.
A noite chegara e havia tanto para fazer. Ou seria por?
Enfim, a lua guiou-lhe os passos de umas botas velhas mas bonitas que lhe enchiam as medidas, não só dos pés. Os membros inferiores, aquela noite, conquistaram novamente a atenção dele. Prendeu-lhe as pestanas diversas vezes – ela nem precisava de o ver. Era como se aquele cristalino castanho estivesse colado às suas coxas toda a noite. Tanto, que ela teve de as pressionar sempre um pouco mais, para o sentir a pulsar um outro tanto.
Um copo que conhece aqueles lábios como ninguém contou-lhe que ele também a sente ao longe. E as conversas são fugidias e toscas, mas os peitos vão-se entendendo.
Ela imagina as suas mãos no dele e – oh! – como ele deseja o inverso.
Talvez seja por entendimento. Talvez se entenda assim.
Entretanto, vão-se cruzando por aí.
Por agora, mergulha por este líquido que provocaste em mim. Dentro de segundos seremos um, disse ela.
A visão estava deturpada. Foram outros os líquidos que os levaram até aqui, até aquele amarrotado de roupas e de cabelos tortos. Desalinhados, estavam. Deixa, em breve, coreografaremos uma dança só nossa. Sentiram-se do outro lado da sala. Penetraram-se ali, com o olhar, por entre sons que conheciam de cor, mas que não precisavam de entoar. Ali, a música era outra. O baixo vivia do alto pulsar que emitiam, de um lado para o outro.
Entraram num carro cor de creme sem dizer para onde iam. E para que serve o destino quando gozamos o instinto?As mentes, inebriadas e embriagadas, fecharam. Agora as mãos assumiam o controlo. A consciência ficou naquela sala onde se encontraram. Para nos provarmos não precisamos de memória, pois não?