quarta-feira, 14 de março de 2012

o dia seguinte

Os olhos, avermelhados, não escondiam qualquer vergonha. Tinha-se deitado tarde na noite anterior – ou já seria dia? – e o corpo ainda transpirava álcool e tabaco fumado vezes de mais. O corpo que pague. Ainda tropeçou umas quantas vezes, a caminho do trabalho, amaldiçoando as pedras da calçada portuguesa e todos os que passavam. À medida que andava, era atropelada por imagens da noite anterior – ou já seriam daquele dia? – e ouvia os gemidos, sentia os toques como se estivesse novamente naquele quarto húmido e escuro.
Olhou para um lado e depois para o inverso, como o pai lhe havia ensinado. Trazia a pele embaçada e escondia uma certa felicidade pelo fim da semana. Os papéis em cima da secretária acordaram-lhe o olhar por momentos, mesmo quando a vontade era mandar todos aqueles corpos imóveis à merda. O dia demorou a crescer e nem os cigarros acesos apagavam a existência de um quinto dia de puro asco em olhar para seres ignóbeis e vazios.
O relógio bateu as horas certas – que nem sempre são as mesmas – e o peito encheu-se de resquícios de vontades alheias.
A noite chegara e havia tanto para fazer. Ou seria por?
Enfim, a lua guiou-lhe os passos de umas botas velhas mas bonitas que lhe enchiam as medidas, não só dos pés. Os membros inferiores, aquela noite, conquistaram novamente a atenção dele. Prendeu-lhe as pestanas diversas vezes – ela nem precisava de o ver. Era como se aquele cristalino castanho estivesse colado às suas coxas toda a noite. Tanto, que ela teve de as pressionar sempre um pouco mais, para o sentir a pulsar um outro tanto.
Um copo que conhece aqueles lábios como ninguém contou-lhe que ele também a sente ao longe. E as conversas são fugidias e toscas, mas os peitos vão-se entendendo.
Ela imagina as suas mãos no dele e – oh! – como ele deseja o inverso.
Talvez seja por entendimento. Talvez se entenda assim.
Entretanto, vão-se cruzando por aí.
Por agora, mergulha por este líquido que provocaste em mim. Dentro de segundos seremos um, disse ela.
A visão estava deturpada. Foram outros os líquidos que os levaram até aqui, até aquele amarrotado de roupas e de cabelos tortos. Desalinhados, estavam. Deixa, em breve, coreografaremos uma dança só nossa. Sentiram-se do outro lado da sala. Penetraram-se ali, com o olhar, por entre sons que conheciam de cor, mas que não precisavam de entoar. Ali, a música era outra. O baixo vivia do alto pulsar que emitiam, de um lado para o outro.
Entraram num carro cor de creme sem dizer para onde iam. E para que serve o destino quando gozamos o instinto?As mentes, inebriadas e embriagadas, fecharam. Agora as mãos assumiam o controlo. A consciência ficou naquela sala onde se encontraram. Para nos provarmos não precisamos de memória, pois não?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

o primeiro da despedida

Das vezes que procurou, achou que a tinha encontrado. Foram-se polvinhando pelo caminho, em todos os caminhos. E, reconhecendo trilhos semelhantes, ideias díspares iam-se fundindo, tornando-se unas – como uma vez foram.
Um mais um.
Sempre que partilharam páginas, frames ou sons juntos, naquelas carruagens, foram um pouco mais felizes. Certamente, cresceram. Por certo, ele não se engana quando pensa que do outro lado também se evoluiu. E quando as vozes falaram mais alto, exaltadas, o coração ficou um pouco mais pequeno. Ainda lhe dói saber que o distante venceu o próximo. Ou que aquilo que é dito ao longe magoa mais do que os abraços (que bons!) e que uns lábios colados (…!). Sempre à chegada.
Já no cais de embarque, com os pés a bater no chão, criaram fissuras fortes, dilatadas. Como o tempo, que os afasta. Merda de tempo, merda de diferenças. Ali, tudo se junta.
São passos apressados, como corações em passos de dança acelerados. Dão voltas sem sair do mesmo sítio porque os corpos sabem bem por onde vão. Linhas que os guiam a torto e, atordoados, vagueiam.
Por ali mesmo, saem e desatam a correr perdidos
em pensamentos
dos pés nascem as ilusões diárias. O que podem fazer se têm onde ir? Minutos contados por outros e ditos por quem ali não está. Mãos nos bolsos porque nas consciências pesam mais. e na liberdade de cada um mandam muitos.
Desvios impostos como os que a cada trinta dias são.